Nos últimos anos, a discussão sobre o rastreamento mamográfico no Brasil ganhou outra escala, e o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, ex-secretário de Saúde, examina o tema a partir de um ponto que costuma escapar ao debate público, que é a capacidade da rede de absorver a nova demanda. Em setembro de 2025, o Ministério da Saúde ampliou a faixa do rastreamento ativo para mulheres de 50 a 74 anos, com exames a cada dois anos, e assegurou o acesso sob demanda às mulheres de 40 a 49 anos, mesmo sem sintomas. A medida amplia o público atendido, mas transfere boa parte do desafio para a organização dos serviços.
O que mudou nas diretrizes do Ministério da Saúde?
Até a mudança, o limite de idade do rastreamento ativo era de 69 anos, e mulheres abaixo dos 50 dependiam, na prática, de histórico familiar ou de sintomas para conseguir o exame na rede pública. De acordo com o Ministério da Saúde, quase 60% dos casos de câncer de mama se concentram entre os 50 e os 74 anos, enquanto a faixa de 40 a 49 anos responde por cerca de 23% dos diagnósticos. O envelhecimento figura entre os principais fatores de risco da doença, o que sustentou a extensão do limite superior, em linha com orientações da Organização Mundial da Saúde e da Organização Pan-Americana da Saúde.
Na leitura do Dr. Vinicius Rodrigues, a novidade mais delicada está na diferença entre os dois modelos adotados a partir de agora. No rastreamento ativo, o sistema convoca a mulher, controla a periodicidade dos exames e acompanha cada resultado. No acesso sob demanda, a decisão é compartilhada entre paciente e profissional de saúde, o que exige informação qualificada já na atenção primária. Sem uma conversa bem conduzida sobre benefícios e limites do exame, a faixa dos 40 anos pode receber mamografias em excesso em alguns territórios e quase nenhuma em outros, reproduzindo desigualdades antigas.
Rastreamento populacional depende de convocação
Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues dimensiona a distância entre oferecer mamografias e organizar, de fato, um programa de rastreamento populacional. O modelo oportunístico, ainda predominante em boa parte do país, depende de a mulher procurar o serviço por iniciativa própria ou por indicação em uma consulta de rotina. Um programa organizado, ao contrário, mantém cadastro da população-alvo, emite convites, registra quem faltou e refaz a busca. A diferença parece apenas administrativa, mas determina quem efetivamente chega ao exame e quem permanece invisível para a rede, sobretudo em municípios pequenos e em áreas rurais.
Os números do Vigitel, inquérito telefônico conduzido pelo Ministério da Saúde, ajudam a medir o cenário. Entre 2007 e 2024, a parcela de mulheres de 60 a 69 anos que fizeram mamografia nos dois anos anteriores passou de 67,2% para 74,2%. O avanço é concreto, mas convive com desigualdades regionais e com a distância entre ter feito o exame alguma vez e mantê-lo na periodicidade recomendada. Rastrear bem significa repetir a mamografia no intervalo correto ao longo de décadas, e não apenas realizá-la de forma pontual.
Fila, regulação e laudo no centro da nova etapa
A ampliação também pressiona as etapas que vêm depois da mamografia. Um exame alterado precisa ser seguido por ultrassonografia, punção ou biópsia, e cada passagem depende de agenda, transporte e regulação entre municípios. O ministério anunciou 27 carretas de saúde da mulher em 22 estados para reduzir filas, porém unidades móveis exigem retaguarda fixa para a confirmação diagnóstica e o início do tratamento. O encadeamento entre triagem e investigação, sob a perspectiva de Vinicius Rodrigues, define se a nova política produzirá diagnóstico precoce ou apenas mais imagens arquivadas.
O passo seguinte envolve a gestão da informação. O Sistema de Informação do Câncer, conhecido como Siscan, permite acompanhar indicadores como o tempo entre um resultado suspeito e a biópsia, além da proporção de exames com laudo inconclusivo. Quando esses dados são monitorados por região, o gestor consegue identificar gargalos antes que eles se convertam em diagnósticos tardios. A expansão da faixa etária abre, assim, a oportunidade de trocar indicadores de produção por indicadores de resultado, medidos pelo estágio em que o câncer é descoberto e pela rapidez com que o tratamento começa.
